Aquisições

Desde que peguei esta mania de me identificar como "editor", assumi um olhar muito mais crítico em relação, principalmente, às publicações nacionais. Infelizmente a situação financeira não está nas melhores condições, e uma série de gastos diversos (como transporte, estudos, e meus vícios não muito saudáveis) muitas vezes me impedem de acompanhar os novos títulos a não ser por notícias que me vêm via internet, e comentários de amigos artistas.
Apesar da cruel ironia, uma coincidência me fez repensar esta "sorte", ao encontrar diversas edições da Ópera Graphica encalhadas em uma revistaria de florianópolis. O lado bom disso tudo, é que pude adquirir edições que a muito tempo queria, como "Lobisomem" de Gedeone Malagola e Nico Rosso, por meros um e cinquenta "pila". O lado ruim, aliás, péssimo, é que isto demonstra a pouca receptividade do leitor florianopolitano aos títulos nacionais. E também desanima a este pretenso editor que, claro, sonha em um dia ter suas próprias revistas distribuídas na cidade-natal.
Este desânimo não me impediu, porém, de devorar as revistas com o mesmo sorriso no rosto de quando as comprei. Fiquei bastante feliz ao me dar conta que as duas histórias publicadas no album "Lobisomem" eram inéditas para mim, não tendo sido publicadas em nenhuma das revistas que tenho. Há também um grande texto biográfico sobre a pessoa de Gedeone e do surgimento do Conde Von Boros, o personagem principal; texto este que infelizmente é prejudicado (assim como outros textos da edição) pela falta de uma revisão mais cautelosa. Erros de português e de digitação pipocam aos olhos do leitor. Faltou também falar um pouco mais de Nico Rosso, cuja importância é tão relembrada pelos editores, que estes até se esqueceram de dar maiores detalhes de sua vida. A edição seria ainda melhor, em minha opinião, se a matéria que a encerra fosse acompanhada de desenhos do próprio Gedeone (já que o título traz seu nome em grandes letras) ou mesmo de Sérgio Lima (que trabalhou com o personagem antes de Nico Rosso) ao invés de simplesmente repetir cenas da segunda história da revista (ocasionalmente retocadas com efeitos negativos, para melhor se adequarem ao fundo completamente negro da matéria).
A falta de esmero acaba prejudicando grandes projetos, como é facilmente percebido em "A Última Missão", aventura em que Watson Portela reune os heróis criados por Eugenio Colonesse (também adquirida pela bagatela de um e cinquenta). A história segue num ritmo rápido, tão rápido que não permite ao leitor compreender quase nada sobre os personagens. Um texto ao fim da edição nos explica que o projeto surgiu numa conversa de boteca, em que Watson e Franco de Rosa desejavam fazer uma homenagem a Colonesse. E só. Diferente de outros títulos tão bons da editora, não há matérias biográficas, não há maiores explicações sobre os personagens, nada. Quem não viveu a época tão venerada pelos dois, e gostaria de curtir uma boa história de super-heróis produzida no Brasil, fica completamente perdido ao ver os personagens simplesmente surgindo e logo soltando bordoadas a torto e a direito, sem direito a quase nenhum (bom) diálogo. Mesmo os leitores mais antigos provavelmente devem ficar decepcionados pela fraqueza e ingenuidade do roteiro, sem falar do traço desleixado de Watson, que está longe da sua melhor fase. O único atrativo da revista acabam sendo as curvas de Angélica, a filha de Satã, que voa e se contorce para exibir ao leitor o corpo quase completamente nu.
Watson Portela, aliás, a meu ver não publica nada realmente bom desde as "Paralelas" originais. Algum tempo atrás, adquiri (na mesma situação de encalhe, mas antes que o preço fosse tão ridiculamente reduzido) o album "Paralelas II", que prometia ser uma "reunião dos melhores trabalhos de Watson Portela". Peca principalmente por não ter investido em trabalho novo. Peca, em outros graus de importância, por nem de longe se tratar dos melhores trabalhos de Watson, apesar de trazer uma ou outra história de grande qualidade.
Este é um outro grave problema que eu observo nas publicações da Ópera. Quando você lê uma resenha ou a quarta capa de uma revista que fala sobre uma "seleção dos melhores trabalhos", entenda como "coisas que tínhamos à mão e não sabíamos bem o que fazer com elas". "Calafrio - 20 anos depois" é uma edição que vale os vinte e tantos reais (com vinte porcento de desconto, novamente, no encalhe) gastos em sua compra, mais pela extensa descrição da históra da D-Arte, que pelas histórias em si. A arte, claro, está fenomenal: tem Colonesse, tem Mozart Couto, tem Colin, Zallas, só os melhores. Mas os textos introdutórios de cada aventura, que ressaltam a importância da mesma na história da HQ brasileira, acabam só servindo para decepcionar o leitor ao fim da leitura. São histórias boas, divertidas, um exemplo a ser seguido na produção nacional. Mas perdem para muito material que já foi publicado não só na Calafrio como em diversas publicações de terror do extinto mercado nacional.
De todas, creio que a única que me agradou por completo, em roteiro, arte e informações adicionais, além de várias características técnicas (como diagramação, letreiramento, revisão, etc), foi "Mirza - A Mulher Vampiro". Talvez eu tenha sido ofuscado pelas formas "rotundas" da bela vampiro, ou talvez a revista seja mesmo um exemplo de dedicação e apreço pelo quadrinho nacional.
Sem esquecer, é claro, de "30 anos de Velta", com a preocupação de Emir Ribeiro em situar novos leitores, e a divertidíssima "mijada ácida" de Doroti.

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